DILEMA DE HEINZ E O PORQUÊ DE MENTIRMOS
Para exemplificar os 3 diferentes níveis de desenvolvimento moral, Kohlberg colocou-nos um dilema, o famoso dilema de Heinz:
"Uma mulher estava a morrer com um tipo especial de cancro. Havia um medicamento que, segundo pensavam os médicos, poderia salvá-la. Era uma forma de rádio que um farmacêutico, na mesma cidade, descobrira recentemente. A manipulação do medicamento era cara, mas o farmacêutico cobrava dez vezes mais do que o preço do custo. Pagava 200 euros pelo rádio e cobrava 2000 euros por uma pequena dose de medicamento. O marido da senhora doente, Heinz, recorreu a toda a gente que conhecia para pedir o dinheiro emprestado, mas só reuniu 1000 euros, que era apenas metade do custo. Disse ao farmacêutico que a sua mulher estava a morrer e pediu-lhe para o vender mais barato ou se podia pagá-lo mais tarde. Mas o farmacêutico disse "não, descobri o medicamento e vou fazer dinheiro com ele". Então, Heinz fica desesperado e pensa em assaltar a loja do homem e roubar o medicamento para a sua mulher. Seria errado fazê-lo?"
É a partir das respostas a este dilema que Kohlberg categoriza o desenvolvimento moral. Não é importante se um indivíduo responde "sim" ou "não" à questão colocada, mas sim, o porquê por trás de tal resposta e, dependendo do motivo apresentado por cada um, seríamos categorizados num dos diferentes níveis de desenvolvimento moral.
Isto leva-nos a abordar a TED Talk apresentada por Dan Ariely que nos fala sobre os motivos pelos quais, por vezes, mentimos ou roubamos. Dan realizou diversas experiências onde colocava as pessoas em situações tentadoras e favoráveis a mentirem. Ele constatou que quanto mais dinheiro estaria em causa, menos as pessoas mentiam, quanto mais probabilidade houvesse de serem apanhadas, também menos mentiam. O orador afirma também que em vez de poucas pessoas mentirem/roubarem muito, o que acontece é muitas pessoas mentirem/roubarem pouco.
Existem duas forças. Uma é que elas sentem-se bem e seguras consigo próprias e não querem mentir/roubar. Por outro lado, podem fazer um pouco de batota, e, ao mesmo tempo, se sentirem de consciência tranquila. Aí, existe um limite de batota que eles não conseguem ultrapassar, o tal "fudge factor" que Dan Ariely referiu, mesmo assim as pessoas ainda querem um mínimo de benefício proveniente de terem mentido/roubado, no entanto não querem modificar as impressões de terceiros sobre elas mesmas. Quando as pessoas pensam na sua moralidade, mentem menos. Quando as recompensas mudam para algo que não seja dinheiro, tendem a mentir/roubar muito mais.
Então, percebemos que mentir ou roubar é uma questão de custo-benefício. Ponderamos qual a probabilidade de ser apanhado, quanto posso ganhar através dessa burla e qual a punição que tenho se for apanhado e é então que decidimos se vale ou não a pena cometer o crime.
TED - Why we think it's OK to cheat and steal (sometimes) | Dan Ariely
Pegando novamente no dilema que referimos no início. Visto que a recompensa de Heinz, ao assaltar a loja do farmacêutico, era o medicamento e, consequentemente, a vida da sua mulher, e contrabalançando a questão moral de roubar com a de salvar a vida de quem ama, Heinz e cada um de nós, nessa situação, consciente ou inconscientemente, faríamos uma avaliação do tal custo-benefício, tendo em conta variados fatores.